Um mediador multifacetado: o PDA

 

PDA do Museu Nacional da Coreia

PDA do Museu Nacional da Coreia

            Pese embora o facto de serem ainda raros os museus portugueses que facultam áudio-guias aos seus visitantes, há já no mercado um novo produto que começa a fazer sucesso em muitos museus do globo. Os pequenos assistentes pessoais digitais (PDA – Personal Digital Assitant) estão já disponíveis em vários museus dos E.U.A. e da Europa, como por exemplo na Tate Modern em Londres ou na Cité de l’Architecture et du Patrimoine em Paris.

            São múltiplas as vantagens deste novo “brinquedo” digital, mas a crescente utilização da tecnologia para potenciar a aprendizagem individual pode acarretar consigo também algumas limitações. Como poderemos então explorar ao máximo estes novos gadjets e atenuar os seus inevitáveis efeitos negativos?

 

Uma parte importante das galerias da exposição permanente da Cité de l’Architecture et du Patrimoine em Paris é dedicada a réplicas em gesso de importantes elementos arquitectónicos de edifícios históricos franceses. Descontextualizados, dificilmente o visitante não-especializado poderá entender o significado histórico-artístico dos objectos expostos ou as relações que existem entre si. No entanto, o visitante pode ter por companhia no seu percurso pelo museu um dos últimos gritos tecnológicos: um PDA.

Visualmente muito apelativo e muito eficaz em termos de marketing, este aparelho digital fornece vários níveis de informação especializada sobre a história da arquitectura francesa. Apenas cabe ao visitante seleccionar o que deseja saber. Com efeito, perante a réplica de um portal românico, o visitante não só pode ficar a saber sobre este objecto, como pode visualizar alguns pormenores no ecrã do PDA, que a olho nu, dada a distância a que se encontra, seria impossível. Além do mais, o software permite-lhe seleccionar mais informação sobre outros edifícios contemporâneos, sobre o românico francês ou ainda sobre a evolução da criação arquitectónica na Europa no final da Idade Média, mostrando-lhe imagens que ele pode comparar com o objecto que tem perante si.

 

São inúmeras as vantagens oferecidas pelos PDA, não sendo senão uma amostra as que se seguem:

o       Permite comparar os objectos do museu com outros ausentes dele;

o       Permite enriquecer a visita com comentários de conservadores e/ou artistas;

o       Possibilita a selecção de diferentes tipos de interpretação para a mesma obra (um bom exemplo é a aplicação criada para o sítio da Internet da exposição “Sacred” que teve lugar na British Library em 2007);

o       Permite que, antes de sair de casa, o visitante possa elaborar, através de software apropriado, um percurso no sítio da Internet do museu que depois descarregará para o PDA, fazendo assim uma visita inteiramente personalizada (isto seria uma forma mais pratica de aplicar um conceito já utilizado pela National Gallery em Londres: o da impressão de percursos definidos pelo visitante através do programa ArtStart disponível no espaço do museu);

o       Oferece ainda a possibilidade de reproduzir sons, música ou testemunhos históricos (o que se torna muito enriquecedor, nomeadamente em museus de música ou de história social).

 

 

Tal como acontece com os áudio-guias, a implementação deste sistema de mediação não deixa de levantar alguns inconvenientes que importa considerar. Em primeiro lugar surge o elevado custo financeiro que este tipo de equipamento exige. Naturalmente que em termos educacionais o retorno compensa largamento os custos implicados, mas em termos monetários o seu custo inicial poderá também ser compensado em boa parte se se aplicar o princípio do utilizador-pagador.

Por outro lado, alguns museólogos e conservadores têm vindo a chamar a atenção para o facto dos PDA, tal como os áudio-guias, serem geralmente concebidos para serem utilizados individualmente pelos visitantes, o que pode comprometer seriamente o princípio da aprendizagem pela interacção social enunciado por Falk e Dierking. Efectivamente, o PDA pode monopolizar a atenção do visitante, impedindo que este não só se concentre na obra como não reflicta sobre ela conjuntamente com a pessoa que o acompanha. A estimulação do espírito crítico pode assim ficar seriamente comprometida. O visitante poderá vir a absorver factos sem conseguir desfrutar esteticamente a obra.

É por isso importante que o software dos PDA seja criado de modo a incentivar a apreciação do objecto e a não impedir o estabelecimento de diálogo. Deverá então optar-se por mostrar imagens apenas esporadicamente, por disponibilizar um único auricular para que um dos ouvidos fique disponível para a comunicação, e por colocar questões directamente ao visitante para que este se sinta estimulado a trocar impressões com as pessoas que o acompanham.

 

            Os limites das potencialidades oferecidas pelos PDA são os mesmos dos da criatividade. Importa agora encontrar os recursos financeiros necessários e a vontade dos directores dos museus nacionais para introduzir também na nossa realidade um destes novos mediadores.

 

 

 

Mais informação:

 

http://www.aam-us.org/pubs/mn/MN_JA01_ArtGadgetry.cfm

http://www.archimuse.com/mw2003/papers/proctor/proctor.html

http://www.bl.uk/learning/cult/sacred/understanding/

http://www.fots.ua.ac.be/teaching/modelingpapers/schroyenetal-nordiskmuseologi.pdf

http://www.nationalgallery.org.uk/plan/information/artstart.htm

John H. Falk e Lynn D. Dierking, Learning from Museums. Visitor Experiences and the Making of Meaning, AltaMira Press, E.U.A., 2000

One Response to Um mediador multifacetado: o PDA

  1. Bruno,

    Queria apenas alertá-lo para duas situações das quais poderá não ter conhecimento, mas já em 2004 (confesso que preciso de ir verificar as datas) foi apresentado um projecto para utilização de PDA’s no Museu da Farmácia e que está disponível no Museu Nacional Ferroviário no Entroncamento um PDA que permite adicionar à visita normal ao museu um conjunto de informações (videos, textos e narrações) bem como alguns jogos interactivos sobre a colecção. Eles são, ainda que em pouco número, uma realidade em Portugal.

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