Museus de Arte e Comunicação: de Jacques Hainard a Rui Sanches

 

Rui Sanches - MNAA

 

 “Não estou convencido que o papel principal dos museus seja o de comunicar.”

  

     Proferida por uma das mais respeitadas pessoas no quadro museológico nacional, esta afirmação revela a grande incerteza que ainda existe sobre a função dos museus na sociedade. O autor desta opinião referia-se aos museus de arte, afirmando que estes possuem especificidades muito próprias (entenda-se produção de conhecimento e fruição estética), não devendo portanto adoptar as mesmas metodologias de comunicação que os museus de ciência ou de história social. A informação em museus de arte (painéis de sala, tabelas desenvolvidas, etc) poderia desagradar, e consequentemente afastar, uma parte muito importante do público (o visitante erudito).

 

       Este ponto de vista é assaz comum, mas importa aqui referir que também os museus de ciência têm como uma das suas principais funções a de produzir conhecimento e, a não ser que nos refiramos a questões relativas a capital cultural e a estatuto social, não vejo como uma tabela de cinco linhas pode incomodar o mais ilustre visitante. A fragilidade destes argumentos é portanto evidente pelo que continuarei a defender a aproximação dos museus a todas as tipologias de públicos, cabendo aos seus funcionários/técnicos esse trabalho de envolvimento das comunidades.

 

      O que considero ser mais importante não é discutir se o papel dos museus é o de comunicar, pois esse parece-me um princípio indiscutível, mas sim que tipo de comunicação é que desejamos em museus de arte. Naturalmente que a interpretação de uma obra de arte ou o prazer da sua fruição estética são não são dados objectivos que possam ser comunicados da mesma forma que um princípio científico. A comunicação em museus não pode significar apenas transmissão de informação.

 

      Jacques Hainard, que recentemente passou por Lisboa para falar de património imaterial, já por diversas vezes defendeu publicamente a sua visão sobre a função dos museus. Ainda que referindo-se a museus de etnografia, o director suíço afirma que “os museus servem para levantar questões” e que as pessoas devem sair das exposições “com mais perguntas do que respostas”[1]. A subjectividade interpretativa impõe por isso que o museu suscite no visitante a sua própria interpretação e que não se limite a transmitir a sua visão como dado absoluto. Tal como Hainard defende, é fundamental que o visitante olhe para a obra e responda à questão: “O que é que isto me diz?”[2]

 

      Da exposição Museum criada por Rui Sanches para o Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA) [3] podem ser retiradas propostas para esse questionamento do visitante face à obra de arte. Do mesmo modo que Jacques Hainard colocou objectos do quotidiano da cultura ocidental a par de objectos da colecção do Museu de Etnografia de Neuchâtel para provocar o visitante e fazê-lo interrogar-se sobre os objectos mas também sobre si mesmo, também Rui Sanches colocou obras criadas por si ao lado de obras do MNAA para problematizar “ a relação que se estabelece entre vários tipos de objectos artísticos e, sobretudo, entre o olhar do espectador e esses objectos”[4].

 

      A comunicação em museus de arte pode por isso passar por outros media que não apenas os painéis de sala, as tabelas ou as visitas guiadas (ainda que estas desempenhem um papel essencial na contextualização da obra para o visitante menos entendido). A aplicação de museografias ousadas que coloquem as obras da colecção em diálogo e confronto, em detrimento do discurso cronológico que monopoliza a maioria dos museus de arte, permitirá certamente criar novas dinâmicas de interacção com o público, convidando-o a participar activamente ao lado do museu na interpretação da obra de arte.

 

 

 


 
[1] Vide: Alexandra Prado Coelho, “Escolha o seu menu no Museu Canibal” in Público, José Manuel Fernandes, dir., Caderno P2, 4 de Dezembro de 2008, p. 4.

[2] Idem, ibidem, p. 5.

[3] A exposição esteve aberta ao público no Museu Nacional de Arte Antiga entre 17 de Maio e 31 de Agosto de 2008.

[4] Rui Sanches, Museum, retirado do sítio da Internet www.fsgaleria.net4b.pt/sitept/exposicao/2008/2008noticia1.html a 14 de Dezembro de 2008.

 

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