Que texto?

 

  

 

 

A quem se dirige o texto?

Qual o tamanho dos painéis de sala?

Que informações colocar nas legendas?

Que construção frásica e que vocabulário utilizar?

 

       Estas e outras questões devem ser respondidas antes de se iniciar a elaboração de textos para espaços museológicos. No entanto, é frequente encontrar legendas e painéis de sala escritos como se de livros se tratassem. Quais são então os cuidados a ter na redacção de texto para o espaço do museu?

 

       O exemplo de legenda que a seguir se mostra é paradigmático do que se deve e não deve fazer.

 

 

      

 

 Fonte: http://www.museu.gulbenkian.pt/serv_edu/cinquentaminutosmuseu/cinquentaminutosmuseu_03.asp

 

 

  

 

1)   A divisão do texto em três parágrafos separados por espaços procura apelar à leitura. É bastante natural que o visitante se recuse a ler uma legenda quando se vê confrontado com um único e longo bloco de texto. A quantidade é por isso um factor determinante se se pretende que a legenda ou painel sejam lidos até ao fim. Nem o texto deve ser demasiado curto ao ponto de não fornecer informações suficientes para a compreensão do objecto, nem demasiado longo que possa afastar o visitante da leitura. Um texto demasiado longo acaba por ser um texto invisível.

      O tamanho dos parágrafos e das frases deve também ser tido em conta. Não somente pela razão acima enunciada mas também porque frases longas, muitas vezes com várias orações subordinadas, exigem um nível de atenção que não é possível no espaço do museu. O acto de leitura de uma legenda não é idêntico ao do de um livro.

 

2)   A apresentação do contexto da produção do objecto permite que o visitante estabeleça com este uma relação espacio-temporal.

      A frase, composta por 26 palavras, está no limite daquilo que é aconselhável para texto museológico, que deve ser de cerca de 25 [1].

 

3)   O segundo parágrafo estabelece uma ligação entre o objecto e a cultura que o produziu, valorizando o parágrafo anterior e preparando a especificidade do parágrafo seguinte.

      O ideal em texto museológico é a atribuição de apenas uma ideia para cada frase, pelo que a oração subordinada deste parágrafo poderia facilmente surgir como frase independente.

 

4)   O terceiro parágrafo, dedicado na íntegra ao objecto, descreve em apenas duas frases o que é objecto, a sua função, os seus aspectos formais e a sua iconografia.

 

5)   A utilização da voz activa é sempre preferível à da voz passiva, pois exige um menor esforço de leitura.

 

6)   Deve ser evitada a todo o custo a aplicação de conceitos técnicos. Expressões e palavras como “gama cromática”, “douradura”, “bojo”, “colo” e “brasão epigráfico” afastam o visitante por criar nele uma sensação de exclusão intelectual.

 

 

       Devo concluir com um outro factor determinante para a boa execução de um texto para espaço museológico: a legibilidade. Importa por isso identificar o público-alvo e ter em mente que, mesmo que uma determinada exposição seja dirigida a indivíduos adultos da classe média, o nível de legibilidade tem que ser acessível a uma pessoa de 12 anos. Não quer isto dizer que o texto seja escrito para um público juvenil, simplesmente que nesta faixa etária deve ser possível interpretar o texto apresentado (pensemos nos níveis de literacia da maioria da população adulta).

 

      Não será a altura dos conservadores dos nosso museus deixarem a tarefa de redacção das tabelas e dos painéis de sala a profissionais com outro tipo de formação?

      Não estarão os técnicos dos serviços educativos mais bem preparados para lidar com este assunto?

 

 

 

 

 


[1] Vide: Laura Gascoigne, “Word Perfect” in Museum Practise, n.º 39, Outono 2007, pp. 58-60.

 

 

4 Responses to Que texto?

  1. Claro que os Serviços Educativos são os agentes dos Museus que melhores conhecimentos têm dos Públicos e dos formatos que mais resultam ao nível da Comunicação. O aspecto Educativo não deve ser nunca descorado e já numa fase anterior de planeamento de exposições os Serviços Educativos têm uma palavra (muitas palavras) a dizer. Em 1999 fui convidada a preparar uma exposição de Auto-retratos que estabeleci desde logo seria muito vocacionada para alunos do 8º e 9º anos de escolaridade e pus em prática as seguintes ideias: Os vários auto-retratos, pertencentes a colecções municipais do Porto, foram colocados à altura média desta faixa etária, as legendas eram simples e com letras bastante grandes para se lerem de qualquer distância da sala, os painéis informativos, também com grandes letras continham frases que revelavam traços psicológicos dos autoretratados. Criei também um espaço táctil com a recriação de um atelier de pintor com espelho e forrei uma oparede com um grande espelho onde, uma turma, podia experimentar auto-retratar-se, a carvão e sanguinea. Todos se sentiram muito bem nas actividades que desenvolvi com as Escolas, incluindo eu mesma…

  2. CriarTurismo diz:

    Sem crítica, mas como reflexão gostava de propor que se repensasse a centralidade dada apenas a alguns visitantes dos museus e das exposições, e que este tipo de experiências com sucesso fossem mais partilhadas entre os serviços educativos dos museus e outros profssionais com reponsabilidade na gestão e dinamização do espaço museológico. Isto quer dizer 2 coisas pricnipais: deve-se pensar em textos diferenciados para diferentes públicos – incluindo um visitante mais de passagem e como menos tempo – e apostar numa abordagem mais integrada dos serviços educativos dos museus, interagindo mais com outras áreas e serviços do museus (como o acolhimento, a comunicação e o marketing, e a própria direcção ou gestão do museu). Bom trabalho.

  3. Alencult diz:

    Não sei á quem deverá competir a elaboração dos textos, sei que estas coisas não deviam passar apenas por um elemento, e que deveriam ser trabalhadas em equipa.
    A comunicação deve ser trabalhada por todos os sectores do museu, sem dúvida que ao Serviço Educativo cabe a maior “fatia do bolo” no que diz respeito à forma comunicacional do Museu.

  4. Hugo diz:

    O Museu deve ser um espaço priviligiado de conhecimento. Deve-se sair do Museu com MAIS “bagagem” do que se entrou. Se isto não acontecer, falhámos os nossos objectivos – transmitir conhecimento. Sem isto, os Museus banalizão as suas colecções. Obviamente que não podemos “elevar a fasquia” em demasia na elaboração da legendagem, mas baixa-la (para míudos de 12 anos entenderem) significa essa mesma banalização. Quantas vezes já eu fui a Museus e a legendagem não correspondia às mnhas expectativas? Fiquei na mesma, saí frustado. Bem sei que posso recorrer a catálogos temáticos. Mas e se o Museu não os tiver (como acontece em muitos casos)? Daí eu defender Roteiros infantis, específicos, onde se abordem algumas peças e as colecções de uma forma mais ligeira, recorrendo ao lúdico para se conseguir ser didáctico. Desta forma dá-se conhecimento específico a um público específico.
    Bom trabalho e parabéns pelo blog.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: