Objectos que importam

 

Sejamos francos: só um motivo muito forte pode ser suficiente para fazer o mais comum dos mortais escalar cento e tal degraus para ver a Custódia de Belém uma segunda vez! Se por um lado a apresentação da obra restaurada, que se espera para breve, pode ser um motivo bastante convincente, por outro isso jamais passará a gerar engarrafamentos infinitos nas Janelas Verdes. Qual é então a solução para tornar a dita custódia, os azulejos com a vista da Lisboa pré-terramoto ou o guerreiro calaico-lusitano em pólos de atracção capazes de competir com aquela pastelaria ali para os lados de Belém?

 

Quem vai aos pastéis não precisa de grandes motivos. Apenas vai para satisfazer uma necessidade, seja ela fome, de conversa, de descanso ou simplesmente gula! A verdade é que também o visitante que entra no museu tem uma necessidade, ou chamemos-lhe antes uma expectativa, que espera naturalmente ver respondida. É aqui que o técnico dos serviços educativos – enquanto responsável por estabelecer a mediação entre o museu e o visitante – deve intervir. Se for capaz de superar as expectativas do visitante, que são no fundo necessidades criadas a partir da motivação que o fazem atravessar a porta do museu, e de lhe suscitar novas motivações, ele regressará. Caso contrário, não haverá Bosch algum que tenha qualquer hipótese de concorrer com o cremoso pastel.

 

Cabe portanto aos serviços educativos compreender, antes de tudo, as motivações que levam os diferentes públicos a visitar o museu. Por outras palavras, o sucesso do papel educativo do museu reside num conhecimento alargado e aprofundado dos seus visitantes. A investigação que tem sido levada a cabo nesta matéria desde os anos de 1970, e sobretudo a partir da década seguinte, permitiram já elaborar uma categorização das motivações que levam os indivíduos a praticar actividades de lazer:

·        uma oportunidade para aprender;

·        a interacção social;

·        o desafio de novas experiências;

·        participar activamente num acontecimento/experiência;

·        sentir-se confortável num determinado ambiente [1]

 

Perante esta lista, aproveito para relembrar que os objectivos de qualquer serviço educativo consistem geralmente em aumentar o conhecimento, desenvolver a curiosidade, encorajar a criatividade, activar o espírito crítico e modificar o comportamento social [2]. No entanto, pessoalmente acredito que antes destes objectivos existe um outro muito mais relevante: tornar as colecções dos museus significativas para os seus visitantes. E para atingir este fim, bem como todos os outros acima mencionados, é absolutamente obrigatório fazer a interpretação do objecto de acordo com as motivações dos públicos.

 

Se considerarmos que a motivação principal do visitante α quando entra no museu é a de aprender algo de novo, então poderemos pensar que uma visita orientada pela exposição permanente pode dar resposta à expectativa entretanto criada. Mas o mesmo pode já não se aplicar aquando a sua segunda visita ao museu. Face ao sucesso da visita anterior, as suas expectativas aumentaram, pelo que passa a exigir desta vez um conhecimento mais aprofundado. Cabe ao museu a responsabilidade de lhe facultar outros meios de aprendizagem de forma a garantir que aquela segunda vez não seja também a última.

 

No entanto, se a vista orientada pode ter um sucesso relativo na estreia do visitante α, o mesmo não será verdade sobre o visitante β que espera poder participar numa actividade de forma activa. São inúmeras as soluções para este caso: realização de oficinas (neste caso destinadas ao público adulto); organização de mesas redondas; realização de eventos sociais com a comunidade local/envolvente (o que poderá também servir o visitante ávido de interacção social); etc.

 

A última tipologia de visitante que gostaria de destacar é aquele que procura simplesmente um ambiente acolhedor. Neste caso, uma das soluções passa por garantir uma elevada qualidade das condições espaciais: disponibilização de locais de repouso ao longo das galerias, salas de leitura, espaços de confraternização. Mas passa essencialmente por aproximar as colecções do público, o que só pode ser feito através de uma diversificação das interpretações dos objectos que, por razões múltiplas, os tornem significativos para todas as tipologias de visitantes.

 

A oferta diversificada de actividades educativas não pode surtir qualquer efeito ao nível da fidelização de públicos a não ser que haja uma compreensão total das motivações do público-alvo que permita tornar as colecções suficientemente estimulantes para que ele possa regressar.

 

 

[1] Marilyn G. Hood, Adults attitudes toward leisure choices in relation to museum participation Dissertação de doutoramento. Ohio State University, 1981. Referência retirada de Charles F. Gunther, “Museum-goers: life-styles and learning characteristics” in Eilean Hooper-Greenhill (ed.), The Educational Role of the Museum, London, Nova Iorque, Routledge, 1999, pp.118-130.

[2] Esta síntese foi elaborada por Claire Merloux-Ponty e apresentada numa comunicação a 2 de Setembro de 2008 durante um seminário internacional de museologia que decorreu na École du Louvre, Paris.


2 Responses to Objectos que importam

  1. fernando gonçalves diz:

    Uma breve discordância com o seu texto.

    A responsabilidade primeira pela capacidade de atrair visitantes a um museu, e o seu retorno, não é da responsabilidade primeria dos serviços educativos, mas sim do seu director.

    É a ele que compete delinear toda uma política global para o museu que dirige, e do qual os serviços educativos são uma das componentes, mas não A COMPONENTE,

    Já que refere o Museu Nacional de Arte Antiga, veja-se o percurso do seu actual director.

    Enquanto responsável pelo Museu Nacional do Azulejo, a sua passagem por este Museu Nacional não trouxe qualquer mais valia ao mesmo.
    O Museu perdeu visitantes, e a nível de visitantes nacionais estes não representam mais do que 15% do total de visitantes, o que, para um museu com a sua qualidade, é uma miséria.

    Desde que tomou posse enquanto director do MNAA a sua actuação fala por si. Não é necessário acrescentar qualquer outro comentário.

    Portanto, o primeiro problema para os Museus Nacionais reside na falta de qualidade da grande maioria dos seus directores, que se acomodam e desculpam, ao longo dos anos, com a falta de apoio e, já agora, dinheiro, por parte da tutela.

    E eles, qual é a sua responsabilidade pessoal e profissional neste marasmo?

    Cumprimentos

    Fernando Gonçalves

  2. CriarTurismo diz:

    A discussão apresentada é mais complexa do que pode parecer, pois a motivação é um elemento diferente da expectativa. Eu posso ter como motivação para ir visitar um museu a aprendizagem e ter outras expectativas em relação aquilo que espero encontrar nesse museu. Estamos a falar de coisas diferentes, ainda que interligadas.

    Como bem refere o comentário anterior, ir ao encontro dos visitantes e comunicar com eles (o que siginifica a capacidade de criar dinâmicas e interpretação junto do receptor) nunca pode ser função de um só departamento do museu, mas o resultado de uma acção concertada entre diferentes serviços, sob a égide de alguém que lidera e define os objectivos e as acções que pretende concretizar para dar resposta à política que definiu.

    O objecto é multifacetado e capaz de gerar várias intepretações e essas dimensões têm que ser trabalhadas entre vários actores e agentes do museu e não só, da comunidade local, e porque não com a participação daqueles que tão bem “vendem o pastel de nata”.

    Pensarmos que o objecto só por si é capaz de gerar visitação é ter uma visão redutora da realidade, pois nem todos os visitantes da arte são “especilsitas” ou têm o mesmo grau de conhecimento sobre o que estão a ver.

    É verdade que é necessário conhecer as motivações dos visitantes, mas não só. E será a capacidade de gerar “experiências memoráveis” que fazem com que aja o regresso para visitação e também transmissão da mensagem que vale a pena visitar aquilo sítio. Este trabalho tem que ser integrado na acção de todo o museu e tem que ser constantemente requestionado, numa procura pela excelência e no encontro com o visitante.

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